domingo, 5 de dezembro de 2010

O QUE EU QUERO?















O que eu quero?

Quero uma saia de filó, com generosas rendas de filosofias para cobrir meus dias sós.

Um bom livro na cabeceira e um colchão macio com lençóis limpos para espantar meus medos antes do sonho.

Quero brigadeiro e pandeló para os dias de chuva e uma oração sagrada que lave o que o vento levou de mim.

Que daqui por diante seja assim: vestir o que ganho, esquecer o que perco. Porque na vida nada se perde quando se ganha a chance de gostar dos próprios defeitos.

Quero um jarro de lírios perfumando o ar de minha casa quando os odores da inquietação me visitarem.

Quero uma sinfonia de Beethoven no raiar da manhã e um maço de rosas vermelhas, inesperado, no portão.

Quero a inocência das crianças que acreditam em sereias e a certeza de que tudo ficará bem apesar do monstro que habita o porão de nossos vícios.

Quero o início das coisas. Quero você lutando por mim!

Quero a força de uma benzedeira velha para espantar o mau-olhado e um punhado de sal grosso para lavar as grosserias alheias.

Quero jogar tudo o que não me serve na boca de um jacaré: pessoas falsas, promessas não cumpridas, projetos inacabados, ansiedade, falta de fé, dinheiro ou paixão, toda inveja e fofoca.

Quero o amor!

Quero viver um dia de cada vez sem achar que tudo era para ontem!

Minhas sobrancelhas têm um jeito muito especial de ostentar seus pesos e suas medidas.

Os olhos enganam, a boca trai, as mãos tremem, mas as sobrancelhas não mentem jamais.São nelas que se encontram todo e qualquer subtexto.

Todo espanto do mundo pode ser percebido num simples levantar de sobrancelhas.

Quero você me lendo. Me despindo. Me descobrindo. Vivendo comigo.

Não quero mais ter olheiras tentanto esconder, nem poemas impublicáveis, nem fingir...

Quero a insustentável leveza do ser...

Quero dizer para todos o quanto eu te amo, caminhar segurando sua mão e saber que você está aí.

Quero me bastar, porque somente quando nos bastamos conseguimos tocar verdadeiramente as virtudes daqueles que amamos.

Quero que minhas palavras tragam pra perto de mim somente pessoas de aura arco-íris.

Quero ser comigo o que sou com os outros: gentil.

Quero ouvir mais "sim" do que não. "Sim" - eu vou ficar com você. "Sim" - eu te amo.

Quero me tornar amiga inseparável do tempo, partilhando com ele meus momentos e não culpando-o por minha incapacidade de acompanhar o seu compasso.

Quero não me ausentar de mim quando as coisas ficarem feias.

Quero rir até o ventre doer e sem motivos para isto.

Quero o balé do beijo, pés descalços, água gelada, vinho tinto, noites bem dormidas e um punhado de criatividade para alinhavar qualquer desalinho.

Quero que essa tristeza que vive em mim vá embora.

Quero te ver na primeira cor da manhã enquanto durmo.

Quero viver com você, para você e por você!

domingo, 31 de outubro de 2010

Eu tiro o chapeu pra vida!




















"DIE LIEBE HÖRET NIMMER AUF"
O AMOR NUNCA MORRE

Frase retirada do Novo Testamento. Encontra-se no túmulo do pai de Nietszche.



Enquanto anoitece em certas regiões eu me dou conta de que parou de doer e isso me dói mais do que a dor perdida.
Não que houvesse apego a dor, mas porque enquanto ela não passava uma parte de mim acreditava no que poderia ter sido ou no que ainda poderia vir a ser.
Passou a necessidade de entender. Passou a urgência.
Ficou a velha parede descascada. Pálida como a minha fé. Eu tinha tanta fé na sua força. Na sua coragem.
A sensação é uma lembrança do que nunca aconteceu. O perfume que se esgotou de uma carta que não fora enviada, ou melhor, foi enviada e você a guardou comigo.
Velhos muros, novos sonhos para pichar.
Com tinta, saliva ou sangue. Assim deve ser.
O contrário é que não pode acontecer: novos muros, velhos sonhos.
Amanhã, quem sabe, quando estiver refeita desse susto, poderei pichar um novo poema, ou, acreditar novamente em minha fé.
Eu não fujo da briga, eu apenas tenho prioridades. E convencer pessoas - mesmo as que mais amo - de que elas estão equivocadas não é uma delas! Prefiro botar meu bloco na rua...
De repente você cansa.
Cansa das músicas que sempre ouviu, das pessoas que te cercam, das roupas do armário, das ruas em que anda.
Cansa do jeito que penteia o cabelo, do jeito que levanta da cama todos os dias e das palavras que escolhe para não dizer o que realmente gostaria de dizer.
Cansa de procurar beleza onde beleza não há e até mesmo de desculpar.
Cansa de tentar fazer os outros enxergarem que seus pesadelos são apenas uma ponte rumo ao nada e não uma encruzilhada.
Cansa de ofertar o verão que queima nos olhos e de ostentar indiferença; e cansa, sobretudo, de fazer a diferença.
Cansa de tentar fazer o certo o tempo todo e de se perdoar quando faz o errado.
Cansa pelo drama do amigo distante, cansa pelas lamentações do amigo ao lado.
E por mais que você corte o cabelo, compre roupas novas, faça uma viagem, leia sobre assuntos inimagináveis, faça uma tatuagem, delete amigos do seu convívio, esse cansaço não passa.
Porque no fundo eu não estou cansada do mundo, mas como eu reajo a ele.
Não é difícil aceitar as pessoas como elas são, difícil é mudar a maneira como reagimos a elas.
Não é aceitar a vida como ela é que cansa, mas sim a dança que fazemos para nos esquivarmos de tudo aquilo que não entendemos ou sentimos medo.
Cansa tanto saber que estou apenas vivendo os dias, mas não estou viva!
Cansei de borrar meus lençois com lágrimas de um amor perdido.
Cansei de borrar minhas roupas nas sarjetas das impossibilidades.
Cansei de borrar minhas unhas tentando tocar o que não está ao meu alcance.
Borrei minha vida tentando me livrar de tua ausência.
Eu queria que as coisas fossem mais simples! Mas elas são. O que falta é coragem!
Simples como as manhãs de domingo.
Como perdoar alguém que desistiu do amor?
Como perdoar alguém que desistiu de mim?
Eu preciso me reconciliar comigo mesma. Ter fé novamente em mim.
Eu moveria o mundo por você!
E você não move uma palavra aos meus ouvidos.
Eu tiro o chapeu pra vida!
Quando achei que finalmente ela sorria pra mim...

Halloween!

sábado, 16 de outubro de 2010

Tempo da delicadeza!










Descobri como se chega no tempo da delicadeza: chegamos no tempo da delicadeza quando conseguimos rir do que passou.
Quando conseguimos rir e sentir um acréscimo de estima por nós mesmos pelas tolices vividas.
Quando deixamos de sentir vergonha de nossos vexames e passamos a encará-los como estilo pessoal.
E estilo é como inteligência: ou você tem ou não.
Bukowski dizia que "estilo é a resposta de tudo, é um jeito especial de fazer uma tolice ou algo perigoso".
Posso não ter sido muito inteligente em alguns passos que dei, confesso, mas, todos eles foram vividos com muito estilo.
Chegar no tempo da delicadeza não quer dizer, necessariamente, entender o que se passou. Aceitar a maneira como o roteiro se desenrolou ou padecer de ausência de vontades.
Quer dizer, simplesmente, que você consegue rir dos tropeços que deu no baile dos seus sonhos e que sente orgulho de ter se jogado na dança apesar de não saber dançar o ritmo das nuvens.
O tempo da delicadeza, o bom e velho Chico, esqueceu de dizer:
é o tempo em que nos amamos, incondicionalmente, apesar e além de...
Quantas ruas sujas e abandonadas é preciso percorrer até que se entenda que as pessoas irão te magoar. Magoar única e profundamente: de um jeito que não se conceba que um ser humano possa fazer com outro.
Quantas noites mal dormidas serão necessárias para se entender que o sono é algo que o coração machucado não compreende.
Ninguém volta o mesmo de uma viagem.
A inocência perdida.
Para se amar de amor é preciso primeiro amar a si mesmo.
Só ama de amor aquele que conhece os próprios abismos e não espera encontrar no colo do outro um paradeiro para suas quedas.
É preciso encontrar um meio de sorrir mesmo quando a tempestade se anuncia.
Para se amar de amor é preciso aceitar que o outro existe independentemente de você e que você existe independentemente dele.
É preciso um bocado de inteireza e beleza nos olhos para não punir as manhãs que despertam cinza.
É preciso não culpar o outro por nossas falhas e faltas.
Para se amar de amor é preciso falar baixinho, porque o amor, como os passarinhos, foge diante de qualquer grito.
Para se amar de amor é preciso estar inteiro, porque quem ama a ilusão de que o outro é a parte que faltava, não ama de amor, mas sim a ideia de estar completo.
Só se ama de amor aqueles que sabem que o amor não é um encontro, mas um acontecimento inevitável.
Meu chão está faltando. Estou juntando os pedaços e não sei se um dia eles estarão como foram antes. Como é difícil respirar sem você!

sábado, 25 de setembro de 2010

Âncoras ou asas?

















O que você é?
Âncora ou asa?

Algumas pessoas são âncoras.
Algumas pessoas são asas.

Quando me vejo impossibilitada de falar tudo o que penso, o que criei como ideologia, o que me constroi a essência; tenho mãos amarradas, ar de doente, olhar de demente. Será que um dia vou acabar assim? Covarde nas decisões, amante nas coisas indefinidas e querendo compreender suicidas. Sem rumo, andando por aí podemos encontrar pessoas. Pessoas âncoras. Pessoas asas.

Pessoas âncoras estacionam nossa felicidade no lugar. Derrubam nossa fome. Destroem nossos sonhos. Inibem nossos pensamentos. Criticam nossa imaginação. Proíbem o destempero da vida e criam um arco-íris monocromático.

Pessoas asas são o vento. A cor. A luz. O amor. Sobem sem saber como chegaram no topo. Caem sem reclamar, porque descobrem que podem recomeçar. São livres de mãos dadas, criadoras e criaturas, são sintomas dos sonhos e não temem a morte.

Quem você é?

Com quem você convive?

Com quem você quer passar o resto da sua vida?

Às vezes não sei por que eu gosto da vida.
Qual o propósito de ser asa se preciso ver repetidamente um amor ancorado?

Queria poder soltar-te as amarras.

Mas sei que há uma coragem em ti que ultrapassa meu entendimento.

Que orgulho tenho de ti! De tuas palavras, de teu pensamento, de tua não corrupção.
Muito da vida se perde na espera. Vivemos no por enquanto.

Quem nasceu para ser asa não há como ancorar.

Eu te espero voar para meus braços.

domingo, 22 de agosto de 2010

A BAILARINA



















A BAILARINA

A bailarina voava em meio aos aplausos. Subia e descia em arabescos de movimentos delicados. Como era linda a sua pele! Nenhum possível movimento poderia ser mais belo como os que ela criava com tanta inocência.
Meu peito pulava todas as noites pelo simples prazer em observá-la!
Mas tão linda criatura já deveria ter entregue seu coração ao mais belo rapaz! Que pena! O que eu, pobre coitado, poderia conseguir? Somente olhá-la, sorvê-la, acreditá-la.
Um dia, ao final do último espetáculo, resolvi buscar-lhe a palavra, somente para transmitir-lhe minha admiração. Coragem é algo que se carrega ou não. Em meu caso, nunca soube o que é ter o peso de tamanha iguaria. Minhas mãos suadas perdiam espaço para a garganta seca. Enfim, como sempre, não consegui encontrá-la. Ela nunca soube, nunca soube o amor que me despertara. A alegria de ver-lhe durante meses, todos os dias, me fez sentir o que realmente sou, minha essência, minha metade. A coragem me faltou, mas, até hoje, a bailarina ainda não me falta.
Soube, depois de algum tempo, que contraiu uma doença degenerativa. Aquela sílfide linda, perdera os movimentos e nunca mais dançou nos ares. Perdeu a memória e sofreu uma vida de ausências.
Hoje, meus remorsos de não dizer-lhe sobre meu amor, me corroem e afastam das lembranças alegres. Soube também por intermédio de um dos funcionários do teatro, que a linda bailarina havia perguntado quem era o fino e elegante moço que todas as noites sentava no mesmo lugar e aplaudia os espetáculos em pé.
Ela me viu. Ela me sentiu.
Eu não tive coragem.
E ela se perdeu sem saber que eu me perdi por ela.

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"As canções que canto, ele as vive em sofrimento. As histórias com que me alegro são as de sua dor. O Amor é mesmo maravilhoso. É mais precioso que os diamantes e mais estimado que a mais fina opala. Pérolas e romãs não podem comprá-lo, nem se pode encontrá-lo nos mercados. Os comerciantes não o vendem e a balança não é capaz de medir seu peso em ouro."

(o Rouxinol e a Rosa - Oscar Wilde)

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Eu escrevi "A Bailarina" em 2006. Ando vasculhando minhas coisas ultimamente e tenho encontrado vários escritos. Eu sonhei com a bailarina uma vez. No dia seguinte escrevi. Estranho como algumas coisas que escrevo me vêm em sonho primeiro. Acordo com a ideia na cabeça e não sossego enquanto não a escrevo. Mas a maioria do que já escrevi guardo para mim. Não consigo imaginar que alguém possa ler. Talvez vergonha. Talvez medo. Não sei. Escrevo como se meus pensamentos se costurassem às palavras. Porém, eles se desmancham com a hipótese da plateia. Queria ser como a bailarina. Às vezes, fecho os olhos e sei que sou ela. Sou ela esperando alguém. Que me vê, que me ama, mas que precisa ter coragem. Eu continuo dançando com as palavras...
Dançando até fechar os olhos para sempre.

sábado, 7 de agosto de 2010

Hoje é 7 de agosto.



















Tenho várias lembranças de minha infância, algumas suaves outras nem tanto assim. Quando tinha uns cinco ou seis anos, lembro-me de um ritual quase artístico que fazia todas as manhãs quando ia à escola. No percurso, em frente à uma casa de portão verde e grandes cadeiras brancas, havia um monte de areia na calçada. Todos os dias que que passava por ali, fazia questão de subir e marcá-lo com meu tênis azul. Mesmo contrariando o adulto que me acompanhava, às vezes minha irmã mais velha ou minha mãe, praticava religiosamente a mesma brincadeira. Perguntava-me por que aquele monte de areia continuava ali sem que ninguém o usasse. Não havia vestígios de nenhuma construção ou qualquer outra serventia para ele. Mas eu não me importava. Era meu por alguns segundos das minhas manhãs. Foi muito triste quando tive de mudar de escola, pois o caminho que faria seria outro e não passaria mais por ali. Fiquei pensando se haveriam outros montes de areia para eu passar e deixar minhas marcas. Não houveram outros montes.Depois de muito tempo passei em frente à casa de portões verdes que sustentava uma grande placa "Vende-se". Na rua todos se conheciam e minha mãe quis saber o porquê da placa, pois uma senhora morava ali há muitos anos. Uma vizinha atenciosa informou que a velhinha havia morrido e que os filhos queriam vendê-la. Comentei minha tristeza e as lembranças de minhas brincadeiras na calçada da casa. A senhora me sorriu e me fez uma pergunta que até hoje não esqueci: "Então é você a menininha que brincava na areia?". Respondi que sim. A vizinha sempre perguntara à velhinha por que não retirara aquele monte de areia já que não iria usar para nada, pois a reforma que tinha feito acabara há tempos. Prontamente ela respondia que não queria magoar a menininha que brincava todas as manhãs na sua calçada. Eu nunca ouvi uma palavra da velhinha e nunca pude agradecer-lhe a intensa lembrança que me proporcionou na infância mas, ainda hoje, quando vejo montes de areia, me lembro dela e me pergunto se faria tal coisa para alguém que nem conheço. Às vezes, a vida nos coloca de cabeça para baixo, para que possamos aprender a viver de cabeça para cima. Tenho tanta saudade do monte de areia. Tenho tanta saudade da época em que era tão simples deixar minhas marcas. Eu penso na velhinha. Ela nem me conhecia. Eu espero tanto - porém, provavelmente, será uma espera apenas. Dói sentir a solidão por alguém que sempre vai embora. Eu acho que se a velhinha me visse sofrendo assim ela teria me dito que o monte de areia foi em vão. Ela só o deixava lá pra me fazer feliz e eu - e eu - não a tenho retribuído. Eu sofro. Eu choro. Eu espero o que não vem. Eu desejo o que não vem. Eu amo o que não vem. Eu moveria o mundo por você - com você. Mas hoje - especialmente hoje - eu não faço parte da sua vida. Talvez nunca faça. Desculpe querida amiga que se foi. Desculpe, porque se você me visse escrevendo hoje - triste como estou - talvez não tivesse deixado o monte de areia para mim. Desculpe e obrigada.