sábado, 11 de junho de 2011

O TAMANHO DO MEU MUNDO!


O TAMANHO DO MEU MUNDO

Meu mundo é uma concha. Sempre foi uma concha. Proteção de um outro mundo: assustador, imenso e envolto em ideias cruas. Diferente daquele que eu lia nos livros. Minha concha era sagrada e mentia a fragilidade que eu teimava em esconder. O barulho fora era meu silêncio dentro. O caos fora era minha paciência dentro. Meu mundo de concha não era uma fuga, era mais um conservatório de sonhos e ideias. Ideias e sonhos que não cabiam no mundo que eu conhecia. Há sempre um ponto em que nosso  interior não condiz com o  exterior.

Fuga seria se eu não tocasse em nada. Mesmo em concha e pela concha minha alma sempre dançou no ar, na mão e no sorriso das crianças, nas histórias que o vento contou, nas lembranças das pequenas e infantis alegrias, no som da liberdade tão rara, na vida que eu lutei para preservar, no fruto que eu concebi, nas luzes do que ainda estava por vir. Enquanto eu fechava os olhos e dormia, meu mundo era mais azul, enorme e refletia um amor que eu ainda não conhecia.

Entendia de forma simples e direta o que era complicado. Compreendia as dores do mundo, chorava com ele, mas nunca tive o sentimento de pertença a ele. Todas as dores sumiriam se “as gentes” despertassem e rompessem o medo. Medo de amar. Medo de lutar. Medo de mudar. Sempre soube disso e, mesmo assim, continuei na concha.

Precisou o mar desabar sua força e delicadeza sobre minha casca dura. Enfim, todas as minhas verdades trincaram-se e eu – finalmente – saí da concha. Conheci outro mundo. Acreditei. Meus olhos agora viam através do meu coração. Eu queria ser melhor. Queria que os outros fossem melhores – queria o mundo melhor somente para que o mar se acalmasse. Pela primeira vez ou pelo reencontro, concha e mar eram um só. Tudo seria tão simples e a paz seria duradoura.

Mas o mundo desatento se estende sem amparo, desperta em solidão e tinge de sangue as flores. Eu simplesmente quero saber se existo. Porque a sensação que tenho é que meu mundo é desabitado, a solidão é maior e o mar me abandonou. Quero entrar na concha novamente, mas ela já não é a mesma. Eu vi, toquei e ouvi o amor. Ele transformou o meu mundo.

Eu caminho dia e noite como alguém cansado de si mesmo, esperando que meu mar me presenteie com suas águas e me carregue para longe deste teatro mundano de paredes negras. O tamanho do meu mundo é do tamanho do mar. Espero não morrer afogada antes dele me salvar.

sábado, 30 de abril de 2011

SEPARAR JOIO DO TRIGO!



Acredito que a maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo.
A partir de então, o ser humano passou a fazer muito sexo e nenhum amor.
Não passamos do desejo e eis a verdade: todo desejo como tal se frustra com a posse.
A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor.

(Nelson Rodrigues - 1974).
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Essa separação de alguma maneira  é clássica. Um sólido amor preserva um pouco do egoísmo. O amor é necessário até para a saúde mental. Freud dizia que nós adoecemos quando não somos capazes de amar - o amor no sentido lato. Mas não é por acaso que a depressão é a grande doença do nosso tempo. Cada vez mais nossa época não nos permite lidar com tempos loucos, com as perdas, com os lutos. Há uma tentativa de reposição de objetos muito rápida, o indivíduo contemporâneo é obcecado pelo fantasma da plenitude que é sinônimo de perfeição. Vivemos momentos de barbárie, que são momentos de ruptura de civilização dentro da civilização. Não amar ou não deixar o amor acontecer é uma barbárie. Para poder lidar com o outro, em todos os campos, é preciso aprender a conhecer o outro que nos habita internamente.

Quanto mais eu me conheço, mais eu acredito que vivo em plena barbárie. Pessoas que se desfazem de outras - amam e não lutam - perdem por inatividade - não reagem. Esse não é meu mundo. Gauche. Sou gauche. Não me encaixo. Não me vejo. Não me sinto aqui.

Sempre soube lidar com perdas e lutos. Mas este luto que me cerca agora, essa perda é a pior de todas, não consigo me sentir, sentir o chão. O mundo gira tão rapidamente, pessoas trocam umas pelas outras como trocam de roupa, mas não eu. Seria tão mais fácil me adequar. Seguir a fila. Não esperar a plenitude. A dor de saber que eu não sou suficiente. Aceitar a escolha de alguém que está errado. Respeito - partindo.

O que a história nos ensinou sobre o amor? Ganhamos liberdade para escolher como viver nossa vida amorosa e sexual. Será? Qual será o futuro do amor? A história não muda enquanto uma geração não pagar o preço. Qual é a minha geração? Qual é o preço que tenho de pagar?

Hoje em dia estamos vivendo o tempo da sexualidade separada do amor, uma sociedade nômade, bulímica e solitária. Viver com quem não se ama - construir com quem não se reconhece. Definitivamente este não é meu mundo e nem quero que o seja. Como pular fora então?

Nietzsche tinge minha mente agora "LEMBRE-SE DE ESQUECER".

A partir de agora, de hoje em diante...lembrarei de esquecer. Esquecer o momento que depositei minha vida nas tuas mãos, minha alma, meu coração, meu corpo. O que você fez disto tudo? Qual a minha importância na sua vida? Como diria Guimarães "O correr da vida embrulha tudo" - somente para aqueles que permitem que isto aconteça.

Ando me tornando velha. Nunca fui. Nunca serei - mesmo que chegue aos 90. Sinto-me velha quando adoeço meu coração de chorar, quando espero sem receber retorno, quando confio e sou traída, quando desejo e não me dão importância, quando sonho e acordo sempre do mesmo jeito. Sinto-me velha quando não tenho vontade de me olhar no espelho, quando tenho vergonha de mim, quando meu riso anda afogado e quando meus olhos perdem o brilho. Não quero ser assim. LEMBRE-SE DE ESQUECER.

Espero que as pessoas se façam novas. Não da pele para fora, mas dos poros para a alma. Velha é aquela pessoa que não sabe perdoar, não se esforça para derrotar seus medos, não arrisca, não tenta e não ama.
Sinto a chuva na minha pele
Ninguém pode sentir por mim
Só eu posso sentir
Mais ninguém, mais ninguém
Mais ninguém pode dizer as palavras que estão nos meus lábios
Estou afogada nas palavras não ditas
Vivo a vida de braços abertos...sem rumo
Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro
Principia pelas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos
Nada fica sem dor
Também os olhos que  armazenam as imagens do que passou- doem
A dor vem de afastadas distâncias
Sepultados tempos
Incertos futuros
Não se deveria chorar pelo amanhã
Às vezes, viver é mais do que consigo e quero
Tenho arrumado meus livros
Minha fotos
Meus trecos
Tudo no seu devido lugar
Dentro de mim tudo está em desalinho
Abandono
Hora em hora ficam espaços vazios
Cedo ou tarde reencontro
Ponto de partida
Deste lado do meu mundo
A noite anda chegando mais cedo
É na cegueira do mundo que eu vagueio
A maneira mais simples de morrer é não amar
Meu livro começa hoje
O resto ainda está em branco
O resto ainda está em branco...

Eu sou única.
O que isso adianta?
Você não está aqui.

Sou mesmo gauche.

O jeito é seguir com Nietszche.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

MEU SONHO!



















A estranheza de um sonho pode ser tal que nos parece que um outro sujeito vem sonhar em nós. "Um sonho me visitou". O sonhador na noite do sono, reencontra os esplendores do dia. Então, ele está consciente da beleza do mundo. A beleza do mundo sonhado lhe devolve, por um momento, a sua consciência. O sonhador e seu devaneio entram de corpo e alma na substância da felicidade. O devaneio poético nos dá o mundo dos mundos. É uma abertura para um mundo belo, para mundos belos. Somos então jogados no mundo, entregues à inumanidade do mundo, à negatividade do mundo, o mundo é então o nada do humano. Há horas na vida de um poeta em que o devaneio assimila o próprio real. O que ele percebe é então assimilado. O mundo real é absorvido pelo mundo imaginário.

Gaston Bachelard - A poética do devaneio.

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Por isso me é tão propícia e caseira a poesia. Nela minha casa se faz. No devaneio e no sonho do ser - ser cada vez mais humano sem tingir-me da humanidade bifurcada e venenosa que nos rodeia. Há um tempo - tempo da delicadeza - em que o devaneio e o sonho juntos formam matizes. Misturam cores. Testam sabores. É o terceiro livro de Bachelard que leio. Ele é insuperável no indefinível. Viagem. Letras transformadoras. Sonhos. Tenho sonhado muito ultimamente. Sonhos únicos. Puros. Pesados. Devaneio contrário. Ninguém tem esses olhos inconfundíveis de mar. Mar absoluto. Todo sonho meu vejo-me perdida neste mar. Mar verde. Mãos firmes. Caos. Vertigem. Calafrio. Amor. Amar é perder-se. Talvez buscar-se no outro sem nunca encontrar-se. Amor é sonho talvez? Não. Amar existe. Amar precisa. Amar refaz o sonho. Retira maus presságios. Mas o que o amor quer é o dia, a noite, as horas e minutos. Tossir. Lavar. Sorver. Adormecer para acontecer tudo de novo. Há um sonho perdido em mim. Ele vem todas as noites me buscar, me carrega para o mar e me acalma como a uma criança. Pingos de chuva. Será sonho? Sonho acordada o dia em que não mais terei de dizer-te adeus. Meu mar único. Conciso. Onírico. Se existem sonhos de uma vida toda - você foi e sempre será meu devaneio e meu único grande amor!

Eu te amo!

Dri

sábado, 12 de março de 2011

Essa boneca tem manual!



















Gosto de gente com defeito de fabricação. Gente certinha do começo ao fim me cansa!

Gosto de gente que não mede consequência para conseguir o que quer (desde que não prejudique ninguém!). Gente que não usa relógio, nem pente.

Gosto de gente que usa perfume caro e chinelo barato. Gente que mete o dedo no glacê e onde bem mais entender sem dar maiores satisfações.

Gosto de gente que lê.

Gosto de gente que me lê! Gosto de quem gosta de Chico Buarque. Não gosto de quem não sabe do que gosta.

Gente indecisa me irrita! Decisões rápidas. Agilidade. Correr o risco. Pular ou não pular não é a questão. Ou pula, ou não!

Gente que tenta agradar sempre e se desagrada o tempo todo me mete medo.

Gosto de gente que dá presente, beijo e bombom sem motivo aparente ou data marcada. Gente que conversa consigo mesma enquanto caminha na rua, gente que ri de si.

Gosto de gente que trata bem as outras gentes como garçons, empregadas, porteiros, balconistas e taxistas.

Sendo gente mulher, aprecio as que usam salto e hidratante depois do banho - ou não - as que simplesmente se vestem do vento e dos sonhos - o que importa são os pés no chão da vida. Sendo gente homem, gosto dos que usam calça jeans, camiseta, barba por fazer e um maravilhoso cheiro bom.

Gente homem que não ouve, não abre a porta do carro, não paga a conta e não retorna as ligações merece um pé.

Gente mulher que fala alto demais, bebe demais, usa perfume demais, que devora livros de auto-ajuda, que grita com os filhos, que não penteia o cabelo e que não gosta de sexo, também merece um pé.

Gosto de quem gostava de Caverna do Dragão.

Gosto de gente que gosta da vida que tem. E não gostando, faz alguma coisa - urgente - para mudar.

Não gosto de gente insatisfeita, burra e que se acha inteligente ou que se acha melhor do que os outros.

Gosto de gente que declara seus afetos sem rodeios: te adoro, te odeio, te quero, te amo, te preciso, te...

Gosto de gente que não gosta de poesia vazia, batida e barata.

Gosto de gente ousada e que toca o outro somente com o olhar.

Não gosto de gente que me faz chorar e nem que me faz esperar. A vida não espera. Gosto de gente que se permite ser amada e que não desiste facilmente.

Gosto de gente que está buscando algo que nem sabe o que é mas continua buscando. Gente que muda de ideia. Gente que admite erros e pede desculpas. Gente que acima de qualquer coisa se esforça para ser PESSOA.

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VOCÊ SE LEMBRA?

O primeiro beijo?
Quando você segurava na minha mão?
O suco que você comprava para mim?
A primeira vez que fizemos amor?
Todas as outras vezes...
Do meu perfume?
De como ríamos juntos?
De me contar tudo o que tinha te acontecido?
De pedir minha opinião?
Do jeito que eu me encolho no banco do seu carro?
De como eu encosto minha cabeça no seu ombro como um ninho?
Quando eu estava com sono e você ficava me olhando dormir?
Da minha mão nos seus cabelos?
De como eu te chamava - meu mar?
Dos mesmos filmes que gostamos...
Das mesmas músicas...
Quando enxugava minhas lágrimas?
De como eu dizia "Eu te amo"?
Do som da minha voz?
De como me olhava quando estava com "fome"?
De quando disse que era impossível me esquecer?
De quando "pela primeira vez" te mandei um beijo no telefone?
Do Cd que gravou pra mim?
De quando falou que nunca me deixaria?
Do álbum de fotos que me deu - do perfume, na sacola com desenhos de joaninhas?
De como me abraçava forte e com amor?

Eu sinto que você esqueceu tudo.

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Você Se Lembra Geraldo Azevedo

Entre as estrelas do meu drama,
Você já foi meu anjo azul,
Chegamos num final feliz, na tela prateada da ilusão...
Na realidade, onde está você?
Em que cidade você mora?
Em que paisagem, em que país...
Me diz em que lugar... cadê você?
Você se lembra torrentes de paixão?
Ouvir nossa canção
Sonhar em Casa Blanca e se perder...
No labirinto de outra história

A caravana do deserto
Atravessou meu coração
E eu fui chorando por vc
Até os 7 mares do sertão
Voce se lembra torrentes de paixão?
Ouvir nossa canção...
Sonhar em Casa Blanca e se perder...
No labirinto de outra história

Na realidade, onde está você?
Em que cidade você mora?
Em que paisagem, em que país...
Me diz em que lugar... cadê você?
Você se lembra torrentes de paixão?
Ouvir nossa canção
Sonhar em Casa Blanca e se perder...
No labirinto de outra história
Você se lembra...?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Com A se dá o tipo de tchau mais triste que existe!

Não é preciso ler o mito da caverna de Platão para saber que uma mesma situação pode ser percebida de diferentes formas pelas pessoas que a vivenciam. Depende da luz, depende do ângulo, depende da predisposição ao fogo. Depende da pedra, da pérola, da partitura, do baú de cada um. Um baú que nunca guardou um sopro, não saberá reconhecer a beleza dos acordes de Beethoven. Um baú que nunca sentiu a seda, não saberá deleitar-se sobre outra coisa que não seja o algodão. Cada um escolhe o que carregar em seu baú. Eu escolho carregar em meu baú o questionamento, o cheiro do vento, o direito de me expressar, o som da chuva, o respeito pela pele alheia, o aroma de café fresco, versos, coragem, paixão e vertigem. Tenho chorado bastante nos últimos dias. Somos semeadores que não escolhem as próprias sementes. Somos semeadores sem ferramentas, sem tato, sem jeito para o trato, para a lida da terra vida. Parecemos ignorar que uma semente é como uma melodia cantada por Holiday: nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la. Vi num filme que um homem deve uivar para a lua somente em três situações: quando encontra seu grande amor; quanto tem um filho e quando consegue o impossível. Por que você me dá tão pouco valor? O chão me torna real. Estranhar é o que me faz existir. Eu estranho meu sofrimento não te incomodar. Não te levantar. Não te fazer viver. Fé é toda certeza que dispensa provas. Seu silêncio me fez perder a fé.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ESPERANÇA!














Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa
Que tudo o que você fez ou faça
É tão somente para ser bem visto ou bem quisto pelos outros.

Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia
Nada mais é do que um pretexto para se esquivar da agonia
Da terrível e temível sensação
De não ser aceito
Não ser perfeito.

E o pior
Às vezes, você trabalha tanto
E não percebe que prefere trabalhar do que ficar perto de certas pessoas
Talvez até de você mesmo.

Descobre que alguns amigos estão ao seu lado
Não por carinho ou admiração
Mas porque você se esforça para ser especial
E porque eles podem lucrar algo por isso.

Descobre que algumas pessoas próximas não te conhecem
E não têm a menor ideia de quem você seja
Mas na verdade elas não têm culpa por isso
Pois foi você quem sempre fingiu ser o que não era.

Depois de um tempo você descobre que nada disso faz sentido
Mas como está distante de tudo o que realmente é importante,
Já não consegue voltar atrás!

E passa a viver os seus dias como um ser errante
A espera de "um milagre"!

E enquanto a cidade se agita
Eu agonizo
Tudo se perde
Sozinho no ninho
Você grita
E sente as dores de um parto que jamais aconteceu:
O seu!!!

É uma pena o amor não ser suficiente
Não o amor das carnes, o amor do meio-dia. Mas o amor pelo que se é.
O amor que aceita, conforta, o amor que é usina e ninho.
O amor que dá sentido às coisas e que ao invés de despir, oferta o melhor das roupas: a nossa própria pele, corpo, alma e coração.

Como todo bom artista que sabe a hora de deixar o palco
Eu parto.
Me parto em pedaços
E parto.
Me sinto minúscula
E parto.

Não se preocupe.

Você já me dá tão pouca importância

Que nem notará que eu parti.

As aparências são tão perfeitas
Porque o ator tem interpretado muito bem.

Eu nunca esperei por um "milagre"
Sempre tive coragem para criar um...

Talvez um dia você se arrependa da vida que não teve
Da vida que você matou em mim!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2011


















Talvez eu não consiga deixar de ser eu porque essa coisa toda que há em mim, e que não sei o que é, não sossega.
Eu posso até fingir, mas não quero, não posso.
Pelo menos começo o ano sozinha - mas verdadeira - inteira.
Acreditei ter visto uma luz do outro lado do rio e quando acordei estava assim, à deriva, sem remo, sem comida, sem colete salva-vidas, embalada apenas pela paisagem de flores ribeirinhas, florzinhas que sorriam para mim como se soubessem um segredo antigo como o mundo "ELE me deixou".
Começo 2011 à deriva. Perdida.
Na outra margem do rio, a fumaça, réstia do que ainda não se consumiu, além do eco de uma voz me chamando, quase um suspiro.
Cravo meus sonhos na água e sigo. Creio que nem tudo está perdido. Nada se perde quando o que se ganhou foi a possibilidade de gostar de alguém.
Daqui para frente quero acordar com um surto de amor-próprio. Daqueles em que inacreditavelmente sentimos que tudo está em sua perfeita ordem. Daqueles em que a gente olha em volta e diz para si mesmo: nada precisa mudar.
Não sei se foi o café, os livros, os filmes ou se foi minha irmã dizendo "ei, você é linda!". Sei que de alguma maneira me vi salva de um possível afogamento e acordar viva me fez perceber que nada, absolutamente nada me fará me perder de quem eu sou.
Quando este tipo de surto acontece, as coisas sem sentido ou explicação perdem a importância. Freud chama isso de sublimação. Por isso sempre preferi Sartre...Ele chamaria de transcendência!
Quando esse tipo de surto acontece nada é capaz de nos arrancar o gozo de rirmos de nossas trapalhadas e quedas. E somente quando conseguimos rir de nossos tropeços acordamos para dentro. E quando acordamos para dentro entendemos que a queda em si contém a ressurreição.
"ELE não me quis - ELE me deixou". O que se há de fazer?
Clarice Lispector estava certa quando disse que as melhores coisas da vida só acontecem quando estamos distraídos.
Eu nunca estive tão distraída quando deixei meu coração ser teu. Não procurei. Não lutei. Simplesmente foi.
Sei que o dia em que conhecer todos os meus abismos hei de me abandonar por completo. Esse dia ainda não chegou. Eu ainda preciso de mim. Preciso me encontrar. Parar de chorar. Preciso parar de doer.
Por isso às vezes me ignoro e não me dou a menor importância. Ah, 2011 - o que é preciso pra essa dor ir embora?
É preciso mais que dinheiro, felicidade, comida, diversão e arte. É preciso surpresa. É preciso vontade. É preciso coragem.
É preciso sorriso no céu da boca para que o dia nasça. É preciso acordar rouca e mesmo assim cantar, sorrir, florir...
Encontrar algo que perdeu. É preciso expor o ouvido a zumbidos inexplicáveis e particulares. É preciso ler Maiakóvski e se cobrir com dois metros de sol poente. É preciso desgrenhar o cabelo ao vento, jogar fora pentes e escova. Rasgar antigos retratos, contratos, casamentos, reflexos e suposições.
É preciso tirar a roupa do cabide que chamamos "alma".
É preciso ausentar-se de si para merecer o que há de azul em nós.
Sofrer não deixa de ser uma maneira de sentir-se generoso, porque somente quando sofre o Homem é capaz de soltar de si e mirar o outro.
Sofrer é uma escolha como outra qualquer. O que todos queremos é amenizar a dor do tombo, a dor do absurdo que é existir e saber que as únicas coisas que existem realmente são aquelas que não podemos explicar, é o amor que sentimos e que nos torna mais vivos. Sofrer por não saber o amor. Por não colocá-lo como princípio de vida e objetivo.
Há os que bordam azuis feito o mar, (Ah - o mar!), escrevem poemas, constroem pontes, ensinam o alfabeto, cantam tons secretos, trançam palhas e cabelos, plantam hortências numa manhã de dezembro. E há os que sofrem.
A existência acontece naquilo que criamos. Daí, se não conseguimos construir pontes ou plantar hortências, sofremos! O sofrimento é como uma capa de chuva: usamos toda vez que o tempo turva apesar de saber que ficaremos ensopados do mesmo jeito.
Dor, desespero, desamparo, medo. "A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional" - Drummond sabiamente definiu.
Meu ano começou com muita dor. Porém, eu não quero sofrer - quero ter um surto. Decidi bordar minha vida de azul - de mar - de mim mesma. Há tanto ainda em mim. Que pena que EU não fui suficiente para você.
Dor, desespero, desamparo, medo. Nenhuma palavra. Você me deixou no mais profundo silêncio.
Foi nesse silêncio que eu surtei. Descobri uma saudade diferente.
Minha saudade não é um buraco vazio onde guardo meus sorrisos.
Minha saudade é uma menina louca que caminha descalça por aí fazendo rima com a ponta da língua. É um girassol perdido de amor pelo que lhe aquece e rejeita. O que minha saudade quer? Talvez coragem, ou, simplesmente não morrer com a face corroída pela covardia que acomete os que apenas passam pela vida.
Minha saudade luta com essa sensação que tenho dentro do peito: desamparada.
Sentir-se desamparado não é o mesmo que sentir-se sozinho. Não é um sentimento, é uma sentença. É uma sentença de inadequação perpétua. A sensação de desamparo é como uma vela apagada. É a certeza de que nem pai, nem mãe, nem filho é capaz de abrigar o que você se tornou. Só ELE. Somente ELE poderia fazer essa sensação ir embora. Mas não. Dói tentar se encolher num canto para esquecer de si e ainda assim sentir o assoalho sob os pés. Sentir-se em desamparo é perceber que o mundo é pequeno demais para meus passos gigantescos. Sinto-me em desamparo porque sou humana, me sinto demasiadamente humana e quem eu mais amo me vira as costas sem olhar para trás...é o mesmo que ser atropelada ou desacreditada. É querer respirar e ter a certeza que o ar foi embora.
As águas que transbordam em mim agora, são, antes de tudo, uma tentativa cega de inundar as ausências que me compõem.
Fecho os olhos e sei, tenho certeza que o amor aconteceu em nós e em nossas vidas. Porque o amor é isso: um acontecimento.
Eu realmente preciso encontrar minha menina para aprender algumas coisas com ela, porque no momento só tenho vontade de picotar meu cabelo e me afogar num balde, pois sinto que virei minha própria barbie: me rejeito, não me escuto, não faço o que tem que ser feito e não me ajudo. Um balde, por favor?!!
A intenção era escrever aqui e colocar pra fora como me sinto. Funcionou. Explosão.
Vou encontrar minha menina em 2011, surtar, carregar minha dor e deixar de sofrer.

Antes deixo aqui o que você foi para mim.


....e de repente ali estava eu: uma menina chamada fragilidade. Eu sabia que não tinha mais idade pra ficar chorando o dia todo, mas não resisti às primeiras horas e como uma criança que não sabe o que quer e soluça somente por desamparo, chorei.
Nenhuma boca soube me amar como a sua, meu mar.
Era isso, exatamente isso o que eu queria te dizer. Mas você foi antes que eu pudesse.
Outras bocas tentaram, mas elas tinham dentes demais! De mim queriam pedaços. Queriam me engolir! Queriam apenas o que em mim há de efêmero: o sabor. Gente gulosa! Gulosa e burra.
Que prazer há em mastigar o que se deseja? Que cereja satisfará a gula dos olhos que não leem perfumes?
Você, não!!! Você tinha mãos de lavrador. Mãos que tocavam com cuidado terras desconhecidas e firmeza aos nós que precisavam ser desatados. Tinha olhos de cão do mato, cão farejador. Olhos doces e cheios de mar.
O creme de fragilidade que ampara minha queda de fruta é apenas mais uma ilusão que você delicadamente me permite ter.
Você sabe que não há creme e que o destino de toda fruta madura é chegar ao chão.
Você me permite esse engano e é por isso que eu te amo.
Você não é vulgar.
Além disso, você me lambe com seus lábios, ergue meu vestido e me põe em reboliço com sua cor e seu jeito de homem.
E quando tudo acaba, em silêncio, a doçura dos seus olhos me faz mulher...depois adormecemos juntos - calda e fruto - certos de que nada importa mais do que a beleza daquilo que não podemos entender...
Você foi o abraço, o beijo, o apoio, o momento que só me fez bem. A ideia e a fala, a inteligência e a razão, o sorriso, o desejo, o descanso, o sonho, a vida, o amor...a certeza e a saudade!